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Comunicação de Quebrada
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De onde viemos, onde estamos e para onde vamos
O Comunicação de Quebrada nasce a partir do questionamento: quem está contando a história do povo periférico? Foi por meio da oportunidade de adentrar no universo acadêmico, sobretudo em grandes universidades públicas e privadas, que obtivemos parcialmente essa resposta. Na cena audiovisual, cinematográfica e artística, por muitas vezes nossas histórias são refletidas e retratadas por violência, criminalidade e hostilidade, o que que nos faz questionar se estamos de fato vivendo nessa tal periferia. Na contramão desse pensamento eurocêntrico que permeia a universidade e os grandes veículos de comunicação, a verdadeira periferia se apresenta em nossa rotina. Na lágrima de uma mãe ao presenciar seu filho se formar na faculdade, nos pixos e grafites espalhados pelos muros da cidade, no ‘chorinho’ do caldo de cana da feira moído na Kombi de 1983 ou na explosão de gritos e fogos no clássico entre os rivais da várzea. Ela está ali. A periferia, a quebrada, o gueto, a favela. O nosso lugar. Nas esquinas, nas vielas, as pessoas, as histórias, a juventude, a velha guarda, a esquerda, a direita, os que não votam, os que brigam pelo time, os que vão embora e os que aqui habitam e permanecem desde a sua fundação. Todos somos frutos das vivências e das oportunidades que este lugar nos apresenta. É exatamente neste ambiente que o CDQ nasce e floresce. Na filosofia ‘Nossa história é noiz quem cria’ buscamos arrancar o que sempre foi de propriedade daqueles que aqui vivem, a nossa verdadeira história.
Nascer e florescer de um sonho
Iniciamos nossas atuações por meio de um podcast de guerrilha, gravado em um notebook emprestado e em um quarto com colchão na janela abafando os barulhos das motos, do som alto do vizinho e dos latidos dos vira-latas da rua. Ao todo foram 35 episódios dos mais variados temas, formatos e convidados. Aos poucos nossas ideias foram saindo de São Mateus e alcançando corações e mentes curiosas que costumeiramente ouviam nossas ideias nos busões, metrôs e trens lotados atravessando a cidade até o trabalho e universidade ou voltando da universidade para a quebrada. A juventude se aproximava das nossas ideias e os aprendizados e vivências nos mostraram que o caminho começaria ali, mas que ele não iria parar.

Assim como todo projeto nascido na periferia, o tempo, o estudo e a vivência ditam as regras do crescimento. Talvez pela falta de autoestima ou amadurecimento teórico e prático, nós não nos enxergávamos enquanto movimento cultural e social, éramos apenas jovens periféricos tentando mostrar pro mundo nossa arte utilizando dos meios de comunicação e transmitindo nossa mensagem com as ferramentas que tínhamos em mãos. Começaram a chegar convites de universidades públicas e privadas para participações em palestras, rodas de conversas e debates como Unicamp, Mackenzie, Cruzeiro do Sul e Campos Salles. Cursinhos populares organizavam feiras de profissões e nos chamavam para representarmos as áreas de Rádio e TV e Jornalismo, movimentos culturais e projetos sociais se aproximavam de nós. Um caminho diferente se apresentava e o Comunicação de Quebrada se renovava.
UBUNTU - Eu sou porque nós somos
Para expandir nossa atuação, alcançar outros públicos e territórios, lançamos uma nova temporada do podcast, desta vez em vídeo e com um novo apresentador, Luiz Lucas. Nas noites de terças-feiras e posteriormente quintas-feiras, convidados como Malcolm VL, Nzambiapongo, Quebradinha, Fernanda Souza ‘CorreRua’, Vinaum, Thiagson, Melissonica, Boombeat e tantas outras e outros pensadores e articuladores da arte periférica, se reuniam para discutir os problemas, as soluções, os caminhos, as vivências, as diversões e dificuldades que envolviam seus trabalhos e histórias pessoais. Um novo público surgia. Entre eles, professores e articuladores sociais que ouviam e se identificavam. Certo dia recebemos a gravação de um professor que transmitiu um de nossos episódios para seus alunos do ensino fundamental. Nosso propósito estava em curso. Nossa liberdade em microfones, roteiros, abraços, sorrisos, filmagens, ideias, debates.

Assim como a periferia, o Comunicação de Quebrada está em constante transformação. Em meio a estudos, pesquisas, direcionamentos e a força mobilizadora provinda do nosso propósito, enxergamos na educomunicação nossa progressão de impacto. Por meio da palestra ‘Nossa história é noiz quem cria: Comunicação, Pertencimento e Periferia’ saímos dos estúdios do centro de São Paulo e ocupamos as salas de aula do extremo da Zona Sul e do fundão da Zona Leste de São Paulo, locais onde a informação chega e sai de forma um tanto quanto distorcida.
Nós sentimos a força da nossa luta adentrando na mente da juventude, fervilhando a revolta, reorganizando nossos ideais, promovendo debates sobre a nossa verdadeira história, assistindo produtos audiovisuais marcantes para a nossa favela e acima de tudo, apresentando um novo universo estudantil e profissional para estes estudantes. Em uma dessas palestras ouvimos de uma aluna a seguinte frase: “Eu acho que essa parada de jornalismo é legal, eu nunca tinha pensado que poderia trabalhar com isso aí.” Era justamente essa revolução que queríamos implantar. Se o subemprego ou a “vida errada” eram opções para esses adolescentes, agora a comunicação, o audiovisual e o jornalismo também se tornaram opções possíveis. Eles se enxergavam nos exemplos. Nas discussões fluíam grandes roteiros de cinema, nas atividades propostas surgiam ideias, fomentadas para e pela juventude. Mas ao despertar o desejo de trabalhar e estudar nesta área, quais são os caminhos que levam o jovem para a universidade? Como conquistar um espaço nessas áreas? Foi justamente esses questionamentos que nos reorganizaram para um novo despertar, mas ainda em sala de aula.
Fé em Deus e nas crianças
Em 2024 iniciamos nossa primeira turma de formação teórica, técnica e prática de audiovisual. Com a oficina ‘Mini documentário pelo celular’ realizada em São Mateus, zona leste de São Paulo, formamos 9 jovens periféricos. Em meio a conteúdos como pertencimento territorial, linguagem audiovisual, composição fotográfica, tipos de roteiro, direção artística, edição de produtos audiovisuais e outros temas importantes, levamos os conhecimentos e aprendizados aprendidos nas universidades de forma acessível e adaptada para a quebrada. Durante as vivências, os jovens também tiveram contato com equipamentos normalmente utilizados numa produção, mas sempre no entendimento que pra quem é de quebrada, metade é o dobro, então logo um biriri (celular) na mão e uma ideia na cabeça já é um grande ponto de partida.

Como entrega de um produto final, nossos jovens produziram o documentário ‘O que nos contam as ruas de São Mateus’, se organizando, escrevendo, orientando e sendo produtores de seus próprios caminhos a partir de suas vivências, linguagens e conhecimentos adquiridos em curso. O documentário, que já conta com quase cinco mil visualizações, é um retrato e síntese da luta da classe trabalhadora e dos sujeitos periféricos que construíram o bairro de São Mateus.
E agora? Quais caminhos iremos seguir?
Para quem nos acompanha apenas pelas redes sociais, sabe que demos uma sumida nos últimos meses. Essa pausa foi extremamente necessária para colocar as coisas, principalmente a cabeça, no lugar, e entender o que queríamos para o CDQ em 2025 e como poderíamos continuar contribuindo com a juventude periférica.
E claro que aproveitamos a máxima de “o ano só começa depois do carnaval” para colocar nossas ideias novamente no trilho. E para ser mais objetivo, sem apagar os passos já dados até aqui, vamos continuar com as palestras em escolas e universidades, além de fornecer novos cursos e formações para a juventude periférica.
Mas a principal novidade para 2025 você já deve ter notado. Lançamos este site com intuito de historicizar nossas vivências, sejam elas passadas ou presentes, trazer novos personagens e perspectivas do fazer periférico, além de trazer assuntos contemporâneos em forma de colunas opinativas. Porque no final de tudo o Comunicação de Quebrada é isso: sujeitos periféricos se reunindo para fazer das ‘bordas’ espaços de pesquisa, registro e movimento.
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